quinta-feira, 29 de março de 2012

COOPTAR, DESORGANIZAR E FATURAR (Álvaro Escher)


A ameaça à sobrevivência, poder-se-ia dizer, gera, no homem, a mais imediata e primeva das reações sob o estigma do medo e do perigo: a manifestação exacerbada do instinto atávico voltado para a defesa e preservação da espécie, dos interesses, das instituições, até mesmo da manutenção do inverossímil e do insensato, do extraordinário... Não poucas vezes, para não dizer sempre, a expressão dessas reações revela o inerente e perpétuo primitivismo agressivo da raça humana, apaziguado,cotidianamente, por traços de civilidade.

Seria, então, a sobrevivência a razão essencial que leva meia dúzia de grandes vinícolas a tramarem na criação do Selo Fiscal e da Salvaguarda? Rasgam-se estatutos(tanto quanto rasga-se a Constituição a todo momento) e atropela-se a Democracia e os seus princípios para pleitear juntos a lobistas e a um governo -em tese popular e de esquerda- medidas de cunho coronelistas e oligárquicas, mais ao estilo de um Estado ditatorial e despótico.

Essas reivindicações encobrem absurdos, sejam de cunho econômico, político e mesmo social, sem esquecer aparentes contradições casualmente bem pensadas.Vejam quão profunda é a maldade.

Se num primeiro momento o Selo Fiscal sofreu oposição de centenas de vinícolas (incluindo a centena que fechou as portas) e as colocou do mesmo lado, as medidas protecionistas da Salvaguarda (aumento de impostos, cotas, rótulos em português) podem desarticular a incipiente organização das pequenas e médias vinícolas, incitando-as a percepção de ‘falsos benefícios’ com as barreiras restritivas.

Benefícios conjecturados na possibilidade de aumento do mercado para os vinhos nacionais em detrimento da redução da oferta de vinhos importados.Apostando-se na manutenção do mesmo tamanho do mercado consumidor. Falsos porque não tornam público as verdadeiras razões por trás das intenções,empreendendo ações as quais podem e, certamente, irão prejudicar todo setor.Falsos, pois ludibriam opositores com promessas de reestruturação e adaptabilidade das cantinas as novas exigências de competitividade. Como se até ontem essas empresas não eram consideradas de ponta tanto na competição quanto na tecnologia?

Falsos ainda, pois especula com o aumento de receita das vinícolas sem esclarecer que o protecionismo não atinge Uruguai e a Argentina, membros do MERCOSUL, e, possivelmente o Chile –com quem o Brasil mantém acordo bilateral-,sendo que é destes países o maior montante de vinhos que entram no Brasil.Absurdamente falso, pois despreza o vinho enquanto substância e entidade para classifica-lo apenas como mercadoria. Como já dito exaustivamente, o vinho não é commodity, nem tampouco pode ser substituído um pelo outro como se fossem ‘iguais’ e o ‘mesmo’, ainda mais diante de consumidores que almejam transpor o patamar de influências e manipulações e atingir níveis de exigência crescentes em respeito aos seus próprios desejos e vontades, onde uma redução ‘artificial’ na ofertada ‘qualidade’ possa vir a ser entendida como um ultraje, quando não uma heresia.

Falso igualmente, porque fere a própria essência do sistema capitalista –do qual eles são os pétreos defensores- ao inibir a entrada dos pequenos produtores europeus, símbolos da manutenção da tradição e da qualidade e mestres em sublimar as idiossincrasias. Submetendo o setor a uma perigosa comodidade e impondo-o a flertar com o mau gosto, situação que pode gerar um contexto ainda mais negativo com essa inibição forçada da concorrência salutar. Ou será que o regime econômico capitalista não é mais o que está em vigor, substituído pelo MMA (Melhor MesmoAniquilar)?

Lamentavelmente falso, porque essas medidas podem representar um ‘tiro no próprio pé’ na medida que o consumidor, desanimado, pode aderir ao boicote como forma de retaliação e consumir ainda menos vinhos nacionais ou mesmo migrar, ainda mais sua atenção e o paladar, para outras bebidas. Falso, redondamente falso, pois como agravante –conforme declaração de executivo do IBRAVIN- as grandes cantinas se endividaram e agora precisam pagar as contas. Pois bem, que paguem. Quando faturam nós não ganhamos nada com isso, a não ser as consequências negativas com a proliferação do mau gosto entre os consumidores, resultado da disseminação de suas bebidas ‘maravilhosas’. Quando se endividam, além de termos que ouvir seu choro e suas lamúrias ‘sinceras’, querem que a conta seja dividida, ou melhor, que seja paga na íntegra por nós outros. Não seria absurdo se os seus departamentos de marketing propagasse: “Você pediu e nós crescemos agora faça sua parte, beba LOOMI.” E estampado nos outdoors, dedo em riste, a figura seminua de alguma modelo da moda.Que interpretação infeliz dada aos fatos. Quem de sã consciência faria investimentos vultuosos na área vitivinícola, no Brasil, esperando que seus vinhos fossem preferidos a tantos outros famosos e melhores do velho continente? Pois, que façam um esforço,como os pequenos e médios fazem, para pagar as suas contas, e que estas sejam pagas honestamente como a nós nos é instituído escravisticamente. Desculpem-me pela limitada e vã inteligência, não consigo captar todas as nuanças e onde querem chegar com elas mas, uma coisa parece aclarar: Não seria a questão da Salvaguarda um assunto a ser averiguado -ao invés da SECEX-, pela Polícia Federal?
(P.S. As cervejarias um dia ainda agradecerão ao setor do vinho pelas medidas ‘inteligentes’).

Mas para não dizer que não falei de vinhos; o que distingue o vinho nacional do importado do velho mundo, mesmo antes da qualidade, é a forma como o ‘negócio’ é encarado na sua origem, na sua essência. Aqui o vinho é um empreendimento como qualquer outro, que visa lucros imediatos, enquanto que para os produtores sérios do velho mundo o vinho é a expressão dos mais recônditos valores do homem com a natureza. Para estes o dinheiro é visto como consequência do trabalho, da fruição harmoniosa e equilibrada com o entorno, para aqueles o dinheiro é a causa única, é o início de tudo, o fim e o meio.

Outro grande equívoco diz respeito a inferência e delegação de poderes.Enquanto na Europa, de uma forma geral, o governo legitima leis que valem para o setor quando estas são discutidas pelos segmentos diretamente ligados a área(viticultores, vinicultores, comerciantes, poetas, etc.), no Brasil quem dita as normas para o setor são jornalistas, advogados, empresários do ramo metal mecânico, de forja e usinagem, do setor elétrico e moveleiro, são os políticos intelectualóides insípidos e omissos, e os executivos profetas. Será que a falta de qualidade, na sua maioria, do vinho brasileiro é reflexo da ausência de cérebros pensantes dentro do setor? Não creio. Pessoas esclarecidas como Ciro Lilla , da Importadora Mistral, Danilo Cavagni, daChandon do Brasil, Luís Henrique Zanini, da Vallontano, mesmos proprietários de restaurantes como Pedro Hermeto, do Aprazível, e Roberta Sudbrack deveriam ser consultados na matéria vinho. Mas não são. As decisões são tomadas pelo votoestanque, de cabresto, amorfo, não representativo das entidades inócuas submetidas ao controle do IBRAVIN. Digo apenas IBRAVIN, para não dizer IBRAVIN, apêndice da MIOLO. Ou será da RANDON? Ou de ambos? Quem dá mais?

Triste realidade de um país católico, que diz crer em Deus e ter fé. Fé na vida, fé no homem, fé no que virá. Mas e a fé no que está aí? Até quando acataremos a corrupção de forma passiva, como se legitima, justa e imutável?

“Dizer que as coisas não mudam não quer dizer que elas sejam imutáveis.” Bertolt Brecht

Mas porque tudo isso? Porque todas essas reivindicações de uma pequena parcela do setor?

“(...) Em nós há apenas o sonho da totalidade, comunhão absoluta que será sempre projeto, possibilidade (...)” Gilmar Marcílio

Voltamos a origem do problema, exaustivamente debatida: a desorganização do setor que não se une para exigir redução de impostos, para difundir a ideia do vinho como alimento, ao ainda para cobrar a instituição do Simples.

Diante de tamanha desarticulação e demagogia não é estranho ver entidades destinadas a atender os interesses da maioria, serem manipuladas como se privadas fossem, beneficiando parcelas seletivas e suas ideologias esdrúxulas. Há culpados? Ou somos, todos, ingênuos inocentes?

Será que pensar no vinho apenas enquanto viés temporal, contingente,como mercadoria efêmera e descartável, diet, light, vai ajudar a saldar as dívidas dos proponentes da Salvaguarda, livra-los da extinção e ampliar-lhes a sobrevida?

Os disparates de um pequeno grupo de espírito paraplégico, produtores devinhos de qualidade capenga, mais afeitos a guerra do que a generosidade, cerceados por farpas e entrincheirados na sua verdade absoluta, clamam aos ventos de todasas eras para que seu brado retumbante ecoe aos quatro cantos dessa nação de berço esplêndido: dai-nos a sobrevivência; dai-nos a Salvaguarda; Salvaguarda e algemas.

É nisso senhores que reside o maior dos enganos da humanidade. A sobrevivência, ao contrário do que parece ou supomos saber, não se configura pela imediata proteção do alimento tangível. Quando uma criança vem ao mundo não é o seio e o leite o que ela primeiro necessita e busca no corpo da mãe amada. Basta-lhe, intrinsecamente, no primordial sopro de vida, apenas o acalanto de um simples abraço, a troca de calor mútuo dos corpos em êxtase, o bater uníssono dos corações transbordantes de felicidade plena, dádiva do dom de gerar e ser gerado. Basta-lhe,tão somente, o choro conjunto de alegria a perpassar cada orifício, cada molécula,cada átomo, e tocará sua alma e despertará seu espírito, lapso de tempo insignificante e eterno que forjará a integridade de seu ente ontológico. A partir de então será, a um só tempo, unidade e o todo, centelha do amor imaculado.

O vinho também é simplesmente isso, basta querer ver, ouvir e sentir. Façamos um esforço, tente, novamente, tente outra vez. De resto as melancias se ajeitam como andar da carruagem.

Álvaro Escher - enólogo

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